Cuidar da atenção, cultivar valores
Imagine uma criança com acesso livre à internet. Sozinha, diante de uma tela repleta de vídeos, jogos e conteúdo de todo tipo. Ela tem o mundo nas mãos, mas será que tem maturidade para filtrar o que vê? E mais: será que consegue se proteger de conteúdos nocivos, manipulações e até de assédios disfarçados de diversão?
O acesso à tecnologia trouxe oportunidades incríveis de aprendizagem, criatividade e conexão. No entanto, crianças e adolescentes têm sido expostos cada vez mais cedo a um fluxo constante de conteúdos vazios de sentido humano e educativo.
Essa é a realidade de muitos alunos hoje. Estão imersos em um universo virtual sem limites, onde tudo é rápido, sedutor e, muitas vezes, violento. O problema não está na tecnologia em si, mas no uso que se faz dela.
Um exemplo recente chama atenção: o fenômeno conhecido como “Brain Rot” (“podridão cerebral”). Surgido como piada nas redes sociais, tornou-se um alerta sério. Vídeos com personagens estranhos, sons frenéticos e tramas absurdas, como os populares Bombardino Crocodilo, Tung Tung Tung Sahur, Bailarina Cappuccina, Tralalero Tralala entre outros, vêm ocupando o tempo e a mente de muitos adolescentes e até pré-adolescentes. À primeira vista inofensivos, esses conteúdos, quando consumidos em excesso, provocam um bombardeio sensorial que pode prejudicar habilidades essenciais ao desenvolvimento emocional, social e cognitivo.
Com o tempo, eles podem afetar a atenção sustentada, a memória, a criatividade, a paciência, o pensamento crítico e até a capacidade de se relacionar. E sabemos o quanto a infância e a adolescência precisam de experiências significativas, que promovam vínculos, escuta, reflexão, criatividade e valores humanos.
Mas há uma boa notícia: a tecnologia também pode ser uma grande aliada na educação!
Quando bem orientado, o uso de celulares e computadores na escola pode gerar experiências ricas e transformadoras. Veja a seguir exemplos de práticas bem-sucedidas que unem o digital ao cuidado e à formação integral dos alunos:
Na escola
=> Educação midiática crítica e lúdica
Atividades que ajudem os alunos a refletir sobre o que consomem, por que consomem e como isso os afeta. Por exemplo: contar histórias, analisar vídeos e debater as intenções por trás dos conteúdos.
=> Rotina com pausas
Incluir momentos de respiração, silêncio, jogos cooperativos e histórias compartilhadas fortalece a autorregulação e o vínculo entre eles.
=> Cultura do cuidado e das emoções
Trabalhar valores como empatia, cooperação, gratidão e respeito por meio de rodas de conversa, dinâmicas de grupo, brincadeiras, projetos coletivos e escuta sensível.
=> Projetos integradores com sentido social
Conectar os alunos com causas reais que despertem propósito, colaboração e engajamento. Assistir a filmes, visitar instituições, exposições e espaços culturais amplia horizontes e promove aprendizados diversos.
=> Criação de podcasts com os alunos
Estudantes entrevistam familiares, profissionais e colegas sobre temas como memória, cultura local e meio ambiente, desenvolvendo oralidade, escuta ativa e habilidades digitais com propósito.
=> Clubes de leitura digitais
Plataformas interativas permitem que os alunos leiam e discutam livros em grupo, com mediação do professor. Isso estimula o gosto pela leitura, a argumentação e o uso consciente da tecnologia.
E introduzindo a tecnologia com intenções pedagógicas...
=> Laboratórios de criação de jogos educativos e histórias
Os alunos programam jogos simples e montam histórias com ferramentas de IA desenvolvendo raciocínio lógico, criatividade, leitura e escrita, cooperação e senso de autoria.
=> Rodas virtuais com autores, cientistas e artistas
A escola promove encontros online com especialistas, aproximando os estudantes de experiências reais, seguras e inspiradoras.
=> Projetos de fotografia e vídeo com foco social
Os alunos registram sua comunidade e produzem vídeos sobre respeito, diversidade e meio ambiente. A tecnologia se torna uma ferramenta de expressão e consciência cidadã.
=> Plataformas com controle pedagógico e mediação
Aplicativos com trilhas personalizadas, tempo de tela monitorado e relatórios de uso ajudam a escola a acompanhar o progresso e envolvem as famílias no processo educativo.
Na família
=> Estabelecer uma rotina equilibrada
Evite que o uso das telas aconteça de forma livre e sem critérios. Combine com as crianças e adolescentes os horários, os tipos de conteúdo permitidos e os momentos adequados para usar os dispositivos. Mais do que limitar, ofereça alternativas ricas e estimulantes. O objetivo é transformar o tempo longe das telas em vivências significativas e afetivas.
=> Conversar com interesse e acolhimento
Pergunte o que seu filho(a) está assistindo. Assista junto, demonstre interesse, ria, comente e aproveite a oportunidade para conversar sobre os valores por trás do conteúdo.
=> Participar ativamente da vida escolar
Esteja presente nas propostas da escola. Participe de rodas de conversa, oficinas com outros pais, festas, reuniões e fortaleça o vínculo com os educadores.
Quando entendemos o fenômeno do "Brain Rot" como reflexo de uma cultura cada vez mais acelerada e excessiva, abrimos espaço para algo muito mais valioso: resgatar o que nutre o desenvolvimento humano: a escuta atenta, a presença genuína, os vínculos afetivos e o tempo de qualidade.
Essa é uma missão compartilhada. E, juntos, podemos criar ambientes mais saudáveis, criativos e significativos para que as novas gerações cresçam com equilíbrio, consciência, compromisso consigo e com o mundo.
Todas essas ações se apoiam em três pilares: controle consciente, acompanhamento ativo e relações baseadas em confiança e respeito. A escola pode limitar o uso das telas, afinal, os abusos na escola são recorrentes, mas além disso, ela pode ensinar a navegar com propósito e responsabilidade. E, quando família e escola caminham juntas, os resultados se multiplicam.
Cuidar do uso de dispositivos digitais e acesso à internet é escolha e obrigação dos adultos, não se pode negligenciar essa tarefa.